A CATEGORIA TEMPO NA INTERLÍNGUA PORTUGUÊS-LIBRAS: AQUISIÇÃO DO PORTUGUÊS ESCRITO COMO L2 POR SURDOS

Autores

DOI:

https://doi.org/10.54221/rdtdppglinuesb.2018.v6i1.150

Palavras-chave:

Categoria Temporal, Aquisição da Linguagem, Gramática Gerativa, Interlíngua, Surdos

Resumo

A presente pesquisa tem como objeto de estudo a categoria tempo na interlíngua Português-Libras produzida por surdos, em processo de aquisição do Português escrito como L2. Este estudo advém da necessidade de investigar as características dessa categoria, verificando em que medida essa interlíngua apresenta aspectos das línguas nativa e alvo ou de nenhuma delas, considerando a limitação de indivíduos surdos em adquirir o sistema fonológico de línguas orais, que é sonoro. Consideramos também, nessa investigação, que tal limitação traz consequências para a aquisição da modalidade escrita desse tipo de língua por esses indivíduos também no que diz respeito ao módulo morfossintático. Ao tipo de língua adquirida como L2 os estudiosos da área têm chamado de interlíngua, considerando esta um sistema intermediário entre a língua alvo e a língua materna. À vista disso, o corpus dessa pesquisa se formou do que podemos tratar como interlíngua Português-Libras. E a análise do fenômeno de aquisição da categoria tempo aqui investigado teve por base o quadro teórico gerativista (CHOMSKY, 1995), admitindo-se a existência de uma Gramática Universal (GU) e assumindo-se a proposição inatista de aquisição da linguagem. Com base nesses pressupostos, partimos dos seguintes questionamentos sobre a aquisição da categoria tempo em Português escrito como L2 por surdos: (1) Há interferência da Libras na produção escrita do Português, indicando acesso indireto à GU? (2) Como se caracteriza a aquisição, por surdos, da categoria tempo em Português escrito? Como possibilidade de resposta a essas perguntas, assumimos a hipótese de acesso indireto à GU, supondo que os surdos apesentam, em suas produções escritas do Português, além de flexão verbal, como ocorre na língua alvo (Português), também, em certas circunstâncias, um tipo de marcação de tempo via marcador temporal lexical específico ou via categoria adverbial, semelhantemente ao que ocorre em sua língua materna (Libras). Os dados que constituem esse corpus foram coletados por meio de amostras de produção escrita de interlíngua Português-Libras produzidas por sete sujeitos-informantes, alunos surdos das séries do Ensino Fundamental II, do Ensino Médio e um sujeito-informante com Ensino Médio concluído, todos alunos do Colégio Estadual Abdias Menezes, no Município de Vitória da Conquista – BA. Aspectos mistos da metodologia de constituição do corpus deste estudo o caracterizam como transversal pelo corte realizado e naturalístico pelo tipo de amostra. Os resultados desta pesquisa indicam ocorrência, na interlíngua estudada, de operadores temporais específicos – os itens lexicais passado e futuro, além de advérbios. Marcando tempo passado, observou-se ocorrência de operador lexical em casos de aspecto verbal não pontual e a dispensa desse em casos de verbos com aspecto perfectivo, como ocorre na Libras, conforme estudo de Silva (2015), o que caracteriza acesso indireto à GU no processo de aquisição da L2, confirmando nossa hipótese. Os sujeitos-informantes apresentaram também nas produções escritas flexão temporal conforme os parâmetros do PB, bem como a realização de verbos auxiliares, marcando o tempo futuro.

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Publicado

30-12-2018