O DESENVOLVIMENTO FONOLÓGICO E SUA RELAÇÃO COM O LÉXICO INICIAL NA FALA DE GÊMEOS E NÃO GÊMEOS
DOI:
https://doi.org/10.54221/rdtdppglinuesb.2018.v6i1.154Palavras-chave:
Desenvolvimento fonológico, Léxico, Template, Fenômeno puzzle-puddle-pickleResumo
O presente estudo tem como objetivo analisar e discutir a relação do léxico inicial com o desenvolvimento fonológico infantil de crianças gêmeas e não-gêmea, adquirindo o Português Brasileiro (PB), na variedade de Vitória da Conquista. Para este estudo, é assumida a perspectiva dinâmica (THELEN; SMITH, 1994; DE BOT, LOWIE, VERSPOOR, 2007; LARSEN-FREMAN, 2008) em consonância com o Modelo de Exemplares (BYBEE, 2001; CRISTÓFARO-SILVA, 2003; OLIVEIRA-GUIMARÃES, 2008), segundo os quais variabilidade e instabilidade são esperadas no percurso de desenvolvimento fonológico infantil e consideram, ainda, o papel da interação e experiência para a representação linguística. É mister enfatizar que a palavra é a unidade mínima de representação. Os dados pertencentes a esta pesquisa são de três crianças do sexo feminino: um par de gêmeas dizigóticas, nomeadas como Bg. e Mg., e uma criança não gêmea, nomeada como L.. São dados coletados longitudinalmente, em intervalos mensais, no período de 1 a 2 anos. São dados gravados em vídeos, com duração de cerca de 30 minutos, em contextos espontâneos de fala entre a criança com seus cuidadores e pesquisadores. Na análise dos dados, descrevemos o percurso segmental das três crianças, separadamente, tendo em vista analisar a emergência de templates (VIHMAN, 2016). Os resultados mostram que cada criança apresenta seu próprio percurso linguístico, apesar de que padrões semelhantes são observados por terem uma mesma língua alvo. Além disso, nota-se uma estreita relação entre o desenvolvimento fonológico com o léxico adquirido pelas crianças durante as treze sessões analisadas, bem como uma sobreposição de exemplares em competição, oferecendo, portanto, uma explicação alternativa para o fenômeno puzzle-puddle-pickle (doravante PPP) que não é estabelecido apenas por limites fonológicos. Ademais, constatou-se que a análise da frequência de tokens e types apresentou dados consistentes sobre uso e desuso de templates ao longo do período observado, com diferenças nos dados infantis em relação essas duas frequências. Em linhas gerais, observou-se uma aquisição não-linear, instável, variável e gradual.
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